Por uma inovação social brasileira e mais preta: a trajetória de Dalva como Amani Fellow – Amani Institute

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Por uma inovação social brasileira e mais preta: a trajetória de Dalva como Amani Fellow

Por: Dalva Santos (Amani Alumni, Programa de Gestão em Inovação Social 2019).

 Nos últimos 4 anos minha atividade profissional gradativamente aproximou-se do tema
inovação social. Em meu trabalho, há mais de 10 anos, como gestora cultural a criatividade e o “jogo
de cintura” sempre foram elementos-chave para lidar com inesperado e com a diversidade de
aspectos que a profissão impõe. Contudo, a percepção de que há algo relevante, e especial, que
surge (particularmente) do trabalho colaborativo não foi sempre tão óbvia para mim. Inclusive
porque, certamente, não é uma tarefa fácil definir de maneira concreta os esforços e resultados que
surgem do processo de descobrir, criar e construir coisas de forma coletiva. Mas foi inevitável que eu
reconhecesse a potência desse tipo de experiência, que eu vejo, hoje, como um modelo refinado e
potente de inteligência para resolver problemas. Algo sem um dono único, interdependente,
múltiplo, capilarizado e que se constituiu teimosamente da certeza de que a perspectiva e
participação, simultâneamente do todo e da particularidade de agente envolvido na questão,
importa. E muito. A partir dessa nova lente eu passei a construir um novo espírito de propósito e
valores para minha vida profissional.

 Com isso não pretendo implicitamente dizer que a inovação social é um caminho mágico,
pacífico e benevolente para tratar os problemas da sociedade. Ao contrário, processos de inovação
podem ser bastante egocêntricos e caóticos. Contudo, o que parece importante destacar é o
entendimento de que: nada é completamente novo ou descolado do que já se criou anteriormente.
E esse pressuposto pode ser bastante poderoso para compreender e agir na direção de promover
impacto social em conjunturas tão complexo como a do Brasil. Claro que precisamos (e devemos
ter!) novos e melhores resultados, mas o processo de inovação pode se beneficiar muito da
recombinação e reformulação de antigas ferramentas, ideias e concepções de mundo. Assim,
comecei a sentir-me profundamente motivada pelo potencial por vezes escondido nessas
combinações pouco óbvias, estranhas ao habitual e sem tanta credibilidade. Seguindo essa intuição,
a produção cultural passou a significar para mim não apenas o exercício técnico de suporte às artes
mas foi, projeto após projeto, se apresentando com um território especial, de pontes possíveis entre
mundos improváveis. Passei a vislumbrar meu campo profissional – a gestão cultural – como esse
espaço essencialmente propício para a construção de significados, de conexões e de articulação do
que nos define como sociedade. E, portanto, como o campo onde eu poderia promover as mudanças
nas quais acreditava e nas quais eu percebia ser uma demanda das comunidades e atores com os
quais trabalhara. Concluí que a prática cultural era, portanto, o solo fértil para o que minha incipiente pesquisa sobre tecnologias e ferramentas sociais apontava ser tendência para tratar as
adversidades contemporâneas.

 Com isso em mente, decidi que me tornaria uma especialista em inovação social, pois assim,
seria capaz de criar soluções não apenas novas, mas melhores para os problemas sociais que eu
identificava. Então, decidi aplicar para o programa de Gestão em Inovação Social (SIM) do Amani
Institute. Faltavam poucos minutos para o prazo final quando enviei minha candidatura. Ufa! Que
maravilhosa superação de expectativas. Com uma metodologia única que nos conduz à prototipação
de iniciativas para impacto social, o Amani Institute me ofereceu novas ferramentas, expertise para
saber como usá-las, autoconhecimento, além de uma acolhedora rede de contatos. Ainda mais
transformador que isso, ao longo do programa internacional, foi ficando evidente quão promissora a
prática da inovação social é para a resolução de problemas complexos característicos do século 21. E
o quão potente a experiência brasileira se apresenta diante desses desafios.
 
 E ainda, por ser uma das poucas mulheres negras em classe (e posso considerar ter sido
praticamente a única também em quase todos os lugares institucionais em que estive), foi ficando
evidente também a relevância de minhas contribuições e a pertinência de minhas propostas e
concepção sobre as situações que se desenhavam. Tornar-me Amani Fellow demonstrou a urgência
em termos mais diversidade também nesse campo, especialmente se realmente quisermos
inaugurar uma nova era com maior qualidade de conexão entre as pessoas, melhores mecanismos
de colaboração e modelos sociais essencialmente sustentáveis. Por tudo isso, ser a única não é mais
uma opção. Não para minha trajetória pessoal e nem para o mundo que nós desejamos ver
prosperar.

 Com todas essas questões na mente e no coração, foi impossível desfazer-me da pergunta: é
possível progredir no campo para a inovação social brasileira sem encarar o desafio da equidade
racial? É realmente possível atacarmos os problemas sociais sem nos incomodarmos em nossos
lugares de privilégio? Ou, aprofundando a indagação: por que nos contentamos em desperdiçar todo
esse poderoso e sábio conhecimento ancestral, subjugando-o e insistindo numa organização social
estruturalmente racista? Foram, então, essas preocupações que passaram a ocupar-me ao longo dos
nove meses de jornada nos cursos imersivos, formatos variados de atividades, apresentações,
desafios, dinâmicas de grupo, templates, quizzes e toda uma gama de conteúdo e interações que me
transformaram em uma pessoa determinada a não ser mais a única. Nunca mais.
 
 No Brasil contemporâneo, uma pessoa preta ou parda enfrenta aproximadamente 2,7 vezes
mais chance de ser vítima de homicídio intencional do que uma pessoa branca. Entre os anos de
2016 e 2918 a taxa de analfabetismo da população negra regrediu de 9,8% para 9,1%, mas o índice é
de apenas 3,9% para a população branca. Dentre preto(a)s e pardo(a)s com 18 a 24 anos, 4,9% ainda cursam o ensino fundamental e 29,6 % o ensino médio, índices bem acima dos atribuídos às
pessoas brancas. Contudo, quanto trata-se do ensino superior 55,6% das pessoas pretas são
estudantes contra 78,8% das brancas.

 A população preta soma 57,7 milhões de pessoas que atuam como força de trabalho no país,
(algo em torno de 25% superior à branca) e representa 1.7 trilhões do consumo brasileiro¹. Contudo,
os dado de rendimento em cada recorte, nos mostram a incrível proporção de que pessoas branca
têm renda média 73,9% maior que pessoas pretas e pardas. E no quesito salários (dentro de um
mesmo grau de instrução) a diferença permaneça alta, 45%.
 Na representação parlamentar a população negra, apesar de ser mais que a maioria, ocupou
entre 2016 e 2018 apenas 24,4% das cadeiras federais, 28,9% das estaduais e um índice um pouco
melhor, 42,1%, das vagas no senado. Apenas 29,9% dos cargos gerenciais são ocupados por pessoas
pretas e pardas, contra 68,6% dos ocupados por pessoas brancas. Quanto maior o recorte de
rendimento do cargo, menor a presença a população preta. E, se fizermos o sub-recorte desta
análise nas 500 maiores empresas do Brasil o percentual de representatividade preta cai para menos
de 7%².

 Então torno a perguntar: como é possível sermos assertivos na aplicação de infraestrutura e
investimentos voltados à melhoria social sem real representatividade nos espaços de poder e de
tomada de decisão?

 Se a inovação social é definida como uma estratégia transversal, na qual as soluções surgem
da colaboração entre governos, mercados e terceiro setor, então afirmo que a agenda da equidade
social é prioritária. Em contexto brasileiro não há nada tão transversal e interseccional. Se olharmos
para os elementos que operam o racismo estrutural, chegaremos em parcelas significativas dos
problemas em torno da educação, gênero, fome, pobreza, infraestrutura urbana, trabalho e renda,
saúde, por exemplo. E a raíz central desse problema reside na conjuntura histórica de formação do
Brasil ou do Brasil-colônia fruto de longa e ainda permanente sequência de violência, subjugação e
desumanização. Somos, infelizmente, uma nação originária em grande parte da escravidão, a mais
longeva estratégia de produção material das nossas “riquezas”.

 Compreendo que reconhecer os efeitos da escravidão na sociedade brasileira pode ser
doloroso e vergonhoso. Porém, pode ser também uma oportunidade para nosso crescimento, no
sentido de (re) descobrimos e honrarmos toda a inteligência e habilidades que, por tanto tempo,
desvalorizamos (foram 3 séculos de escravidão oficial). Como sabemos, a trajetória de constituição das sociedades modernas está calcada na lógica colonial. Estima-se um contingente de 36 mil
viagens feitas por navios negreiros para as américas. No Brasil, essa operação representou a chegada
de 4.8 milhões de africanos em condição escrava 3 . Nós “importamos” um dos maiores números de
pessoas escravizadas e fomos a única colônia que manteve a escravidão como modelo comercial
mesmo após a independência. A abolição formal aconteceu em 1888, apenas 132 anos atrás. Apenas
três gerações atrás. Isso significa que meus bisavós podem ter nascidos em condição escrava. É um
passado muito recente quanto trata-se de processo histórico. O contexto é ainda mais significativo
quando rememora-se que o fim oficial da escravidão não significou, contudo, oportunidade efetiva
de participação social sob ótica cidadã para essa maioria afro-brasileira diaspórica. Ao contrário, a
prática das instituições e a conduta social reforçaram (e ainda reforçam) sistematicamente um papel
subalterno a essa parcela da população.

Todos esses dados, informações e debate merecem um artigo próprio. O que parece
imprescindível destacar é a relação inegável entre a história recente da escravidão brasileira, seus
ainda recorrentes mecanismos de manutenção de privilégios e a enorme desigualdade
socioeconômica que nos caracteriza, e que molda nossos desafios como sociedade. Sendo assim, do
meu ponto de vista, se quisermos “sonhar com os pés no chão” e estruturar possibilidades para uma
inovação social ancorada na realidade brasileira, precisamos nos reconectar e (re) aprender a honrar
essa inteligência preta que nos é negada. Certamente não há uma resolução rápida e simples. E nem
deveríamos considerar ser possível que haja uma. Mas, fazendo uso do aprendizado dos últimos
meses e da intuição que sempre esteve comigo (assim como o que pude experimentar no Amani
Institute) inovação nasce, especialmente, da capacidade de reformular nossa percepção sobre a
realidade…então, decidi olhar para o desafio da equidade racial no Brasil sob a perspectiva da força
de reconstrução, da ousadia e, especialmente, da abundância…

Como protótipo resultante de meus estudos e, inaugurando minha nova direção
profissional, fundei o Ubuntu Cuidadoria – um framework de serviços voltado ao desenho e
cocriação de melhores soluções para equidade racial e diversidade. Minha visão é aumentar e
qualificar a participação da população negra, especialmente mulheres, em espaços institucionais de
maior autonomia, comando, poder e de tomada de decisão. Além desse conjunto de serviços –
gestão executiva, produção e mediação de conteúdos e facilitação de processos – está em fase de
testes um programa em quatro passos, destinado ao aprimoramento das ações de equidade em organizações já sensíveis à pauta. Até o final do ano, com a colaboração de rede parceira, teremos a
aplicação do primeiro ciclo do programa.

De tudo que vivi como Amani Fellow, levo a certeza que não estou sozinha. Certeza que
somos uma rede potente e engajada em construir uma sociedade que nos faça, em todas as
dimensões, prosperar. Eu sou porque somos! Seguirei assim, imbuída do lema que a filosofia Ubuntu
tenta nos ensinar faz tempo.

¹Dado extraído da pesquisa "A Voz e a vez: diversidade no mercado de consumo e
empreendedorismo", realizada em 2018 pelo Instituto Locomotiva e Instituto Feira Preta.

¹Dados estatísticos coletados do informativo “Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil”
divulgado em 2019 pelo IBGE.

³SCHWARCZ, Lilia Moritz e GOMES, Flávio dos Santos. Dicionário da Escravidão e liberdade: 50
textos críticos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Ubuntu é um termo da oralidade Zulu, língua da região Sul Africana, que foi no Brasil popularmente
entendida como sinônimo da expressão “sou o que sou a partir do somos”; cuidadoria é um
neologismo que faz alusão ao termos curadoria, trazendo a dimensão do cuidado e respeito ao
elemento tratado.
Thursday May 28th, 2020 by Marta Castagno

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