A dor invisível de mães negras – Amani Institute

Blog

A dor invisível de mães negras

Mapeamento dos serviços de atendimento psicológico para mães vítimas de violência do Estado

Lorraine Carvalho Silva, formada em Direito e pós-graduada pelo Programa Internacional de Gestão em Inovação Social (SIM) pelo Amani Institute em 2018, conta a história por trás da sua pesquisa realizada como projeto de impacto social do Programa Internacional de Gestão em Inovação Social.

“Eu comecei a pesquisar por conta do “Map the System” competição da Universidade de Oxford, em que o Amani estimula  que a gente participe. O que eu mapeei foram os serviços de apoio para mães vítimas de violência do Estado, a hipótese que eu tinha era que não existiam essas iniciativas, e que as poucas que existiam eram insuficientes. A princípio, eu queria fazer a pesquisa no  Brasil, mas depois decidi limitar e fazer só sobre São Paulo”, ela explica.

Lorraine fala dos atores importantes para que sua pesquisa fosse realizada, e que um dos passos para desenvolver um projeto de impacto é justamente questionar quem são eles. Como a maior parte das vítimas de mortes por violência do Estado são negras e periféricas , assim são as mães que buscam responsabilização pela violência que sofreram.  Ela destaca, entre outras mulheres que entrevistou, Míriam Duarte, uma das fundadores da Associação de Amigos e Familiares de Pessoas Presas e Débora Silva, do Movimento Mães de Maio.

Sobre as conclusões do estudo, Lorraine conta que “o atendimento psicológico existe pelo Estado somente através do CRAVI (Centro de Referência e Apoio à Vítima. Eu entrevistei o coordenador do CRAVI. É a única unidade que existe no estado de São Paulo, fica no fórum criminal, já parte daí a grande dificuldade de acesso ao serviço, as mães precisam passar por um policial militar, pois são eles que fazem a guarda do fórum, o atendimento também é restrito ao horário comercial, fica do lado do Ministério Público, uma instituição complicada nesses casos de violência perpetradas pelo Estado, ao ser uma das partes responsáveis pelo processo acusatório contra os próprios agentes do Estado.”.

Atualmente esse é o único serviço que existe, houveram outras unidades que foram fechadas. Ele surgiu por conta do acidente de avião da TAM, como resposta à morte repentina de pessoas brancas, e ainda  atende de forma muito incipiente,não é um serviço preparado para atender essas mães. O luto dessas mulheres, em sua maioria negras, têm especificidades. Como confirma Lorraine, “o gatilho para tudo isso foi ver que as mães estavam adoecendo, a dona Vera do movimento Mães de Maio foi encontrada sem vida ao lados das fotos da filha dela, por exemplo”. E ainda que pareça não ser um caso isolado, estes números nem sequer foram mapeados.

Muitas  mães transformam o luto em ir atrás de justiça, algumas carregam consigo as balas que acertaram os filhos na bolsa; se o Estado não avança o suficiente com a investigação, então elas o fazem por conta própria.  Futuramente, Lorraine tentará seguir com a pesquisa, fazer novas entrevistas e levantar mais dados sobre a condição destas mães. Uma triste constatação, segundo ela é que cada vez mais estes movimentos de mães crescem porque “todos os dias mortes como essas acontecem, fazendo com que mais mulheres passem a fazer parte desta estatística da dor”. 

Tuesday, der 14. May 2019 por Jau Santoli

Related content