Você está tendo um Debate Intelectual ou Religioso? – Amani Institute

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Você está tendo um Debate Intelectual ou Religioso?

Este artigo foi originalmente publicado pelo nosso co-fundador Roshan Paul no LinkedIn. Leia mais artigos aqui.

Eu assisti recentemente dois amigos terem um debate público. Tudo começou quando Marshall Ganz, da Universidade de Harvard, foi co-autor de uma polêmica no Stanford Social Innovation Review, chamada “Empresa Social não é Mudança Social”, na qual ele defendeu mais apoio à política em vez do empreendedorismo social. Uma das organizações criticada foi Ashoka. Em resposta, Michael Zakaras, funcionário da Ashoka, escreveu uma forte réplica no Medium. Ambos os artigos foram amplamente compartilhados em meus círculos profissionais.

 

Eu assisti ao debate com interesse porque conheço bem as duas partes. Ganz é ex-professor e mentor, e atualmente está no Conselho Consultivo Global da minha organização, Instituto Amani. Sua influência desempenhou um papel fundamental no nosso desenho curricular. Por outro lado, minha co-fundadora e eu trabalhamos na Ashoka por um total de dezessete anos, e sua abordagem à mudança social também sustenta fundamentalmente nosso currículo e nossa cultura de equipe.

 

Como eu conhecia bem os dois lados, percebi que eles estavam tendo um debate religioso disfarçado como se fosse algo intelectual.

 

Ganz acredita avidamente no papel do governo para solucionar problemas sociais. Esta é a sua “Igreja”, por assim dizer. Por outro lado, a Ashoka vem da igreja (ou, mais apropriadamente, do monastério budista), onde os indivíduos devem agir porque o governo é incapaz de resolver nossos problemas. Ashoka acredita que isso ocorre de tal forma que, quando um de seus integrantes entra no governo, essa pessoa é destituída de seu prestigioso título de “Companheiro” até que eles deixem o governo e retornem à sociedade civil.

 

Isto não é católico versus protestante. Isto é Cristãos versus Budistas – uma noção fundamentalmente diferente sobre o caminho para a iluminação, sobre como a mudança social acontece. Mais precisamente, são os monoteístas (existe um Deus chamado Governo) contra os ateus (não há Deus; todos podem ser agentes de mudança).

 

Ok, vou parar de brincar com metáforas agora.

 

Mas antes disso, devo creditar ao meu roteirista favorito, Aaron Sorkin, essa situação como um debate religioso. Em The Newsroom, ele escreve uma cena em que o presidente da empresa e um de seus funcionários discordam sobre quem realmente cria empregos. É uma ótima cena. Assista:

https://youtu.be/TiQiKmf8irE

 

Uma vez que você perceba esta propensão a argumentos religiosos disfarçados de intelectuais, você começa a vê-lo em todos os lugares ao seu redor. Veja a recente controvérsia de Serena Williams – se você acha que ela é briguenta ou que os árbitros do tênis são sexistas e racistas, provavelmente depende mais de seus próprios modelos mentais (ou seja, sua “igreja”) do que quaisquer fatos objetivos sobre o que realmente aconteceu naquela final do US Open.

 

Recentemente, eu estava em um debate semelhante. Em uma viagem de volta a Harvard, eu me encontrei com um amigo que havia deixado seu empreendimento social (muito bem-sucedido) que ele co-fundou para um trabalho no governo local em Boston. Ele acredita, muito razoavelmente dado seu histórico pessoal, que o governo é a avenida pela qual os agentes de mudança devem caminhar. Por outro lado, meu próprio empreendimento social opera em três países, todos são potências regionais, cujos governos são corruptos, obstruídos e incompetentes.

 

“Eu vejo cada vez mais o valor do libertarianismo”, eu disse a ele.

 

“Por favor, não diga isso“, ele implorou em horror.

 

Como gerações anteriores a nós, debatemos, em um café na rua ao lado de Cambridge, regado a pizza e cerveja. Mas nós estávamos tendo a conversa errada. Nós pertencemos a diferentes religiões e, assim, ao invés de discutir sobre qual fé estava certa, deveríamos ter discutido como as duas religiões podem trabalhar juntas para criar um mundo melhor. É assim que Ganz e Ashoka devem se unir também.

 

Isto soa familiar? Você consegue se lembrar de argumentos intelectuais de sua própria vida que eram, na verdade, argumentos sobre valores e crenças?

 

Naturalmente, esses argumentos acontecem tanto, ou mais, em nossas vidas pessoais quanto no local de trabalho.

 

O problema dos argumentos religiosos, como o próprio Ganz me ensinou em um de seus cursos, é que você nunca pode “vencê-los” através do uso de evidências, fatos ou lógica. O único caminho é mobilizar um conjunto diferente de valores que o outro lado também acredita e, assim, encontrar um terreno comum dessa maneira. (No Instituto Amani, criamos um currículo inicial sobre isso, mas não avançamos com isso. Deveríamos.)

 

Estou me esforçando para ter mais consciência de quando estou em um debate religioso. Recentemente, uma amiga me perguntou se um de nossos programas na África Oriental é consistente com nossa missão social. Quando expliquei como o programa tem impacto social (uma resposta intelectual), ela reagiu imaginando se ainda acreditamos nessa forma de capitalismo (uma resposta religiosa). De repente, eu pude ouvir os sinos da igreja tocando. Então eu mudei de abordagem. Eu sabia que compartilhávamos uma crença comum: que é vital que as empresas sociais se envolvam com o setor privado e influenciem as empresas a se portarem de maneira mais positiva. Ressaltei que nosso programa tem componentes de pensamento sistêmico e baseados em valores em seu currículo. Ela entendeu e seguimos em frente.

 

Mas era importante que eu não tentasse discutir com ela sobre o capitalismo (minha reação instintiva e “religiosa”), por isso mudei a conversa para outro conjunto de valores que ambos considerávamos – a importância da colaboração para resolver problemas.

 

Não é fácil, no entanto. Apenas na semana passada, a mesma amiga e eu discordamos em um aspecto do movimento #MeToo. Percebi tarde demais que estávamos em um debate religioso, não intelectual. É uma armadilha fácil de se mergulhar.

Da próxima vez que você se encontrar em uma diferença de opinião com alguém e não conseguir evoluir a conversa com dados ou lógica, pode ser que você esteja em um desacordo religioso. Entenda que a outra parte apenas está usando um conjunto diferente de valores e lógica do que você. O único caminho pode ser explorar como você pode encontrar um terreno comum para se trabalhar em conjunto.

Friday, der 28. September 2018 por Jau Santoli
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